Após 35 anos na UFMG, Kátia Lemos encerra ciclo em sala de aula e mantém a ginástica como projeto de vida
Professora, treinadora, árbitra internacional e referência da ginástica aeróbica brasileira fala sobre legado, World Games, formação de campeões e o futuro da modalidade no país
Depois de 35 anos dedicados à universidade, Kátia Lemos vive um daqueles momentos em que passado e futuro parecem ocupar o mesmo espaço. A professora deixa as atividades da graduação na UFMG, mas não se despede da ginástica aeróbica. O projeto que ajudou a construir dentro da universidade, responsável pela formação de atletas e treinadores ao longo de mais de três décadas, continua fazendo parte de seus planos.
A decisão de encerrar este capítulo nasceu de uma promessa feita por ela mesma muitos anos atrás: sair da universidade da mesma maneira como entrou — gostando de dar aula, próxima dos estudantes e participando ativamente das atividades práticas. “Eu prometi para mim mesma que ia sair pela mesma porta que eu entrei: gostando de dar aula, fazendo as minhas aulas e envolvida com os meus alunos.”
Com o passar dos anos, Kátia percebeu que continuar no mesmo ritmo significaria abrir mão justamente daquilo que sempre considerou essencial em sua forma de ensinar. “Minha cabeça quer continuar fazendo muitas coisas, quer continuar fazendo todas as aulas práticas, mas o meu corpo já não consegue. Antes que eu mudasse os meus valores, eu decidi solicitar a minha aposentadoria da graduação.”
O projeto de ginástica aeróbica, porém, segue. Oficialmente registrado há 31 anos, o trabalho começou antes mesmo de Kátia ingressar por concurso na universidade e, segundo ela, já soma cerca de 33 anos de história.
A ginástica veio primeir
Antes da universidade, veio a ginástica. Kátia começou como atleta de ginástica rítmica e reconhece que essa formação influenciou também sua maneira de trabalhar posteriormente com a ginástica aeróbica. Ela não se define como uma atleta de destaque daquela geração, mas foi justamente a experiência construída na rítmica — especialmente com flexibilidade, pivôs e qualidade de movimento — que acabou entrando em sua identidade como treinadora.
Depois, já como estudante da UFMG, fez graduação e mestrado na instituição e doutorado na Universidade do Porto, em Portugal. Foi durante esse caminho que surgiu uma ambição: levar para dentro da universidade os valores que havia aprendido através do esporte.

A UFMG se tornou, então, muito mais do que um local de trabalho.
“Ela faz parte de quem eu sou, da minha identidade”, diz Kátia. A ligação é tão automática que, segundo ela, há domingos e feriados em que sai de carro para outro compromisso e, quando percebe, está chegando à universidade. “Eu fui e sou muito feliz trabalhando com o que eu gosto, no lugar em que eu queria trabalhar e vencendo os meus desafios. Por isso está muito difícil para mim.” É, como ela mesma resume, um “difícil bom”: cheio de emoção, amor e histórias.
Uma medalha que simbolizou anos de trabalho
Entre as histórias construídas ao longo da carreira, uma das mais importantes veio nos World Games, nos Estados Unidos. A vitória de Lucas Barbosa e Tamires Rebeca na dupla mista representou, para Kátia, a consolidação de um trabalho que vinha chegando repetidamente perto do ouro. A dupla acumulava segundos lugares em Mundial e Copas do Mundo, algumas vezes separada da vitória por diferenças mínimas.
Quando finalmente veio o título, a treinadora pensou em tudo o que havia sido necessário para chegar até ali. “Eu queria ajoelhar onde eu estivesse e agradecer a Deus por não ter permitido que eu desistisse.” Ela também destaca o papel da UFMG e da Confederação Brasileira de Ginástica, que, segundo Kátia, não apenas viabilizou a participação da equipe em competições internacionais, mas demonstrou acreditar no projeto.
Quando a medalha não vem
A carreira também foi construída com momentos em que o resultado esperado não chegou. Nos World Games seguintes, a situação foi quase oposta. Lucas e Rebeca chegaram à competição como uma dupla reconhecida internacionalmente e com grandes expectativas.
Pouco antes da apresentação, porém, Rebeca sofreu uma grave lesão no tornozelo. Mesmo assim, entrou na área de competição. O episódio abalou emocionalmente a dupla e um erro durante a coreografia acabou deixando os brasileiros fora da final. Kátia faz questão de ressaltar que isso não significa afirmar que a dupla venceria se a lesão não tivesse ocorrido. “Eu respeito muito todas as duplas que passaram para a final. Só estou colocando a situação como ela aconteceu.”
A experiência, diz, reforçou uma filosofia que leva para o treinamento: concentrar energia naquilo que pode ser controlado. “Não adianta justificar as nossas ações pela arbitragem ou pelos concorrentes. A única coisa sobre a qual temos controle é aquilo que a nossa dupla faz, o nosso treinamento e a nossa performance.” E resume a lógica com uma frase que costuma repetir aos atletas:
“Eu não ganhei todas as batalhas que disputei, mas com certeza perdi todas aquelas que não tentei.” O episódio foi doloroso, mas, segundo ela, também a fortaleceu como treinadora.

Para treinar, é preciso entender como se julga
Além de professora e treinadora, Kátia é árbitra internacional. Para ela, conhecer profundamente o julgamento não é apenas um complemento da formação de um técnico: é uma necessidade. “Independentemente da modalidade em que você atua como treinador, você tem que ser árbitro. Você não precisa estar arbitrando, mas tem que ser árbitro.”
O objetivo, explica, não é aprender o código para contestar notas, mas entender exatamente o padrão que será exigido dos atletas e utilizar essa informação na construção e na periodização do treinamento. b“Se você não conhece, não estudou e não entende como o seu ginasta vai ser avaliado, como vai programar o treinamento?” Para Kátia, conhecer o código significa descobrir onde estão as maiores possibilidades de perda e trabalhar para reduzi-las.
Talento ajuda. Disciplina, paixão e fé fazem a diferença
Ao falar sobre o que transforma um atleta em campeão, Kátia rejeita respostas simples. Talento importa, diz. Mas não basta. “Quando o talento não trabalha duro, o trabalho duro vence o talento.” Para ela, os atletas que permanecem no alto rendimento precisam reunir disciplina, capacidade de lidar com adversidades, entrega e paixão.
“Talento é importante, mas a disciplina e essa paixão que faz a gente passar por cima dos problemas é o que pesa mais.” Nesse conjunto, Kátia acrescenta um elemento inseparável de sua própria trajetória: a fé. “Porque a gente controla algumas coisas e outras não. Então a gente tem que acreditar.”
Brasil cresce, mas precisa respeitar o processo
Quando olha para a ginástica aeróbica brasileira atual, Kátia vê evolução. Principalmente nas categorias de base. Segundo ela, treinadores e clubes começaram a trabalhar de forma cada vez mais alinhada ao Código de Pontuação, sem abandonar a identidade da escola brasileira.
A mudança é especialmente importante em um momento em que a execução próxima da perfeição ganha peso crescente na ginástica internacional. Kátia cita os resultados recentes das categorias de base na Copa do Mundo de Cantanhede como sinal dessa evolução. Mas faz um pedido: paciência.
“Quero pedir ao povo brasileiro que tenha paciência de aguardar o processo evolutivo sem queimar etapas.” Na categoria adulta, ela reconhece que muitos dos atletas brasileiros ainda estão construindo experiência internacional e que vários disputarão um Mundial pela primeira vez.
O objetivo continua sendo buscar os melhores resultados, mas sem ignorar o peso emocional e técnico de uma competição desse nível. Para chegar à alta performance e lutar de maneira consistente por finais mundiais e pódios em Copas do Mundo, Kátia estima um processo de aproximadamente dez anos de trabalho.
Conhecimento que atravessa fronteiras
Essa construção também passa, para Kátia, pelo intercâmbio internacional. Durante a entrevista, ela destacou a importância da participação de profissionais como Cristina Casentini, primeira vice-presidente do Comitê Técnico de Ginástica Aeróbica da World Gymnastics e da Confederação Mediterrânea de Ginástica, e Matteo Guerrini, treinador-chefe de Ginástica Aeróbica da Federação Francesa. Ambos estarão envolvidos no training camp organizado por Paulo Cesar dos Santos, diretor técnico da modalidade no Rio de Janeiro, que será realizado em fevereiro de 2027, em pleno Carnaval carioca.
Ao falar de Cristina — amiga e contemporânea de longa data no universo da Ginástica Aeróbica —, Kátia ressalta especialmente sua ampla experiência e sua capacidade de contribuir para o desenvolvimento e o fortalecimento da escola brasileira. Já ao falar de Matteo e da escola francesa, destaca uma característica específica: a generosidade na transmissão do conhecimento.
“Ele não fica guardando o conhecimento só para ele. Compartilha de uma forma tão generosa que só não cresce quem não aproveita.” Para ela, trazer diferentes escolas, experiências e formas de enxergar a modalidade é parte do processo de evolução do Brasil.
Como Kátia gostaria de ser lembrada
Depois de décadas formando atletas, professores e treinadores, Kátia diz que não espera ser lembrada principalmente pelos títulos. Ela gostaria que seus antigos alunos pensassem nela como alguém que levou a responsabilidade de ensinar a sério.
“Gostaria de ser lembrada como uma pessoa que contribuiu para a formação dos meus alunos, que não fugiu das minhas responsabilidades como docente.” Ela sabe que também será lembrada pelo rigor, pela pontualidade e até pelas roupas combinando — toda de rosa, azul ou verde, como brincam suas alunas.
Mas existe algo que espera que fique acima de tudo isso: “Que as pessoas lembrem que eu amo dar aula e amo a ginástica. E isso não vai mudar nunca.”
“Se você quiser vencer, tem que amar muito”
No fim da conversa, quando convidada a deixar uma mensagem aos atletas, alunos e treinadores que cruzaram seu caminho, Kátia voltou aos dois pilares que diz terem sustentado sua trajetória: fé e amor pela ginástica. “A única coisa — duas coisas — que me fizeram não sucumbir aos problemas foram a minha fé em Deus e o meu amor pela ginástica.”
Um amor que ela define como passional, construído com entrega. E que, para Kátia, explica por que algumas pessoas conseguem continuar mesmo quando as dificuldades parecem maiores do que a vontade.
“Se você quiser vencer em alguma coisa, você tem que amar muito, porque senão as dificuldades te afogam.” Um capítulo de 35 anos se fecha. A relação de Kátia Lemos com a ginástica, no entanto, continua aberta.
Texto de autoria da jornalista Silvana Conte.



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